A Ficção Científica Brasileira: de 1875 ao século XXI!

Separamos uma lista de livros para você.

Você curte livros de ficção científica (FC)? Quais escritores você lembra quando pensa em sci-fi? Por acaso, tem algum brasileiro na sua lista? 

Resgate literário de O doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar, reeditado pela Minna editora.

Não se preocupe por não ter lembrado de nenhum nome, afinal, a ficção científica é um gênero dominado, tanto na literatura, quanto no cinema e na televisão, por obras e produções estrangeiras.

Mas onde estão os escritores de ficção científica nacional? Por que lembramos de Isaac Asimov e não de Jeronymo Monteiro?

A maioria das pessoas não sabem, mas o Brasil é um país com uma vasta produção na literatura de ficção científica, seja em romances como a distopia Não Verás País Nenhum, de Ignácio Loyola Brandão, seja nas coletâneas de contos, como Fractais Tropicais – O Melhor da Ficção Científica Brasileira, lançada em 2018.

Fractais Tropicais – O Melhor da Ficção Científica Brasileira, lançada em 2018.

Mas como começou a ficção científica no Brasil? 

Temos uma primeira obra ainda no século dezenove, O Doutor Benignus (1875), de Emílio Zaluar, inspirada em parte nas ficções de Jules Verne, conta as aventuras de um médico-cientista e sua comitiva, pelo interior selvagem do Brasil. 

O Doutor Benignus (1875).

Um nome importante na história da FC brasileira é Jeronymo Monteiro, considerado o “Pai da FC Brasileira”. Fundou a Sociedade Brasileira de Ficção Científica, em 1964, e, no início da década de 1970, tornou-se editor do Magazine de Ficção Científica, edição brasileira do The Magazine of Fantasy & Science Fiction estadunidense. Entre suas obras, destacam-se: O irmão do Diabo (1937); Três meses no século 81 (1947); A cidade perdida (1948) e Os Visitantes do Espaço (1963). Em 2016, o dia 11 de dezembro se tornou o “Dia da ficção científica brasileira” em sua homenagem. 

Três meses no século 81 (1947), reeditado pela Plutão Livros

Para entender um pouco melhor o histórico da ficção científica brasileira, existe uma classificação por ondas das diversas fases da FC nacional, sendo a obra de Monteiro considerada a porta de entrada. Essas ondas seriam formadas por gerações de escritores que compartilham temas, propostas e influências. 

Primeira Onda

Nos anos 1960 e 1970, foi publicada uma coleção de livros lançada pela Edições G.R.D. de Gumercindo Rocha Dorea, que encomendava trabalhos dentro do gênero a autores já consagrados, chamados de Geração GRD, a partir do livro Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz, se iniciava um começo de organização de autores brasileiros.

O principal nome dessa geração foi o escritor André Carneiro O teorema das letras, considerado, ao lado de Bráulio Tavares A espinha dorsal da memória, um dos melhores escritores de ficção científica brasileira. Nessa fase da FC brasileira temos narrativas humanistas sem a preocupação com a plausibilidade científica que caracterizava a FC norte-americana da época.

Segunda Onda 

É a geração de autores brasileiros de ficção científica que sucede a Geração GRD. Na segunda onda temos uma cultura de leitores, escritores e escritoras articulados ao redor de grupos e fanzines (publicações não oficiais independentes produzidas e consumidas entre os leitores). 

Tendo início nos anos 1980, prosseguiu até o início do novo século e foi marcada pela influência do cyberpunk sobre a ficção científica brasileira e o desequilíbrio entre a utilização da tradição norte-americana com abordagens nacionais.

Representantes dessa onda: o cantor e compositor Fausto Fawcett com o livro Santa Clara Poltergeist, bem como nomes como Jorge Luiz Calife (Padrões de Contato), Gerson Lodi-Ribeiro (A guardiã de memórias) e Roberto de Sousa Causo (Glória Sombria).

Terceira Onda 

A terceira onda surge com a força da internet: blogs, redes sociais, e-books. Temos também muitas revistas eletrônicas publicando ficção científica e pequenas editoras organizando coletâneas e antologias (de livros físicos e digitais). As redes sociais se tornaram agentes de produção, publicação e divulgação das obras literárias, e mais: nelas vêm sendo construído e mantido o relacionamento entre leitores e escritores. E os próprios leitores têm papel importante na divulgação dessas obras, papel antes restritos a editoras e revistas.

Nessa onda, alguns fatos chamam a atenção: surgem um maior número de escritoras e variedade de temas, com a ascensão de novos gêneros e subgêneros como o New Weird, o Steampunk e o Afrofuturismo. E não posso deixar de citar a publicação da coletânea de contos publicada em 2013, Universo Desconstruído, organizada pelas escritoras Lady Sybylla e Aline Valek, que foi a primeira coletânea de ficção científica feminista.

Além de nomes oriundos da segunda onda, destaque para nomes como Jean Gabriel Álamo (Poder Absoluto), Lu Ain-Zaila ((In)Verdades: Uma heroína negra mudará tudo),  Enéias Tavares (A lição de anatomia do temível Dr. Louison), Cristina Lasaitis (Fábulas do tempo e da eternidade), e muitos outros.


Quarta onda?

Cyberagreste, em arte criada por Vitor Wiedergrün

E assim a psicologia e a história nos mostram como um fenômeno tão comum, aparentemente inofensivo, tem raízes mais profundas do que muitos poderiam imaginar.

Estaremos ainda na terceira onda, ou já entramos numa quarta onda da ficção científica brasileira? 

Atualmente vemos autores que exploram subgêneros populares, como o afrofuturismo, no qual se destaca a obra O Caçador Cibernético da Rua 13, de Fábio Kabral, ou sertãopunk, gênero criado pelos autores Alec Silva, Gabriele Diniz e Alan de Sá, ou a versão LGBT, a partir de movimentos como o Manifesto Irradiativo e a coletânea Violetas, unicórnios e rinocerontes

A maior facilidade de publicação de e-books, principalmente pela Amazon, tem trazido ao público obras incríveis como o hard sci-fi de Fernando Rômbola (Ester), e também obras do autor Gilson da Cunha, que traz o humor nas histórias de FC (recomendo Onde kombi alguma jamais esteve). Agora, se você quer distopia brasileira e atual, vai adorar as obras de André L Braga (Do inferno ao planalto) e de Vinícius Canabarro (Aurora das aberrações). 

Para os fãs de Jogos Vorazes, Aelita Lear nos presenteia com um mundo extraordinário na série Cativos, que inicia com o livro Pangea. Para os aficionados por space opera, temos as novelas de Lady Sybylla: Deixe as estrelas falarem e Por uma vida menos ordinária. Enfim, tem sci-fi nacional de qualidade para todos os gostos!

Um projeto muito interessante, escrito a seis mãos, é o livro (que na verdade é o primeiro de uma série) A Alcova da Morte. Uma trama de investigação policial dentro de um enredo de ficção científica steampunk, dos autores A.Z. Cordenonsi, Enéias Tavares e Nikelen Witter.

Se você curte thriller sci-fi vai se deliciar com as histórias de Os sucessores, de Douglas Ribeiro e Números Perfeitos de Leonardo Born.

Além de variados subgêneros e temas abordados pelos autores de FC nacional, temos um movimento de maior ligação entre os autores e leitores devido a redes sociais e grupos de mensagens. Um grupo de autores independentes de ficção científica desenvolveu um selo, o Saifers-BR (idealizado pelo escritor Maikel Rosa, autor de A vespa esmeralda) para que os leitores pudessem identificar prontamente as obras que possuem características semelhantes ao do seu gênero favorito. Um grupo para fortalecer os autores independentes e a conexão com os leitores do gênero.

E com sucesso no financiamento coletivo, temos uma grande coletânea de contos que logo será enviada para os apoiadores: O livro da ficção científica brasileira. Com contos de 39 autores dos mais diversos temas dentro do sci-fi, esse livro promete marcar um momento importante da FC brasileira.

Apesar das dificuldades, autores e editores (principalmente independentes) abrem um caminho importante para marcar a ficção científica brasileira como um gênero forte e respeitado. E os leitores tem um papel essencial também na divulgação das obras clássicas e contemporâneas da FC brasileira. Fica aqui meu convite para você, fã de sci-fi, conhecer os vários universos da Ficção Científica Brasileira.

Christiane Sakamoto, mãe e leitora, criou o IG @letras.cadentes para compartilhar suas experiências literárias e paixão pela ficção científica. Busca divulgar principalmente a ficção científica brasileira e a escrita por mulheres.

Curtiu o conteúdo? Comente se você já conhecia alguma dessas obras.

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Um comentário em “A Ficção Científica Brasileira: de 1875 ao século XXI!

  1. Gaby Responder

    Que artigo mais interessante!! Não conhecia tanto da ficção científica 🥰

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