Machado de A a Z

Afinal, por que ler os clássicos brasileiros? Levantamos alguns temas sobre como Machado de Assis foi variado e relevante, nesse texto, os argumentos A e B.

A. O vai e vem machadiano:

No discurso literário, um fato narrado não é tão importante pelo que se diz, o modo como se diz é o mais especial. Transitar de um lado a outro da narrativa, sem perder o rumo é uma característica marcante e original em Machado de Assis. O andar ziguezagueante (como nomeou José Guilherme Merquior), dentre outras maneiras, pode ser visualizado na constante alternação do tempo; expressado ora por meio de flash backs (igual no cinema, quando há uma volta ao passado) ora flash fowards (o completo oposto, um avanço para um acontecimento futuro); essas idas e vindas intencionais são divagações sem perder o rumo. Em Dom Casmurro esses recursos são muito usados para referenciar o caráter das personagens que vão surgindo (José Dias, Tio Cosme, D. Glória, Pádua, Capitu), assim entendendo melhor a atitude de cada um no decorrer do que é contado.

B.     A Intertextualidade

Um texto dentro de outro, ou uma narrativa que faz referência a outras histórias; o escritor que faz uso da intertextualidade pode convidar o leitor a conhecer outras obras. No mesmo Dom Casmurro (que citaremos muito nessa série) César, Augusto, Nero e Massinissa são imperadores que, como Bentinho, foram traídos. Fausto de Goethe está presente na obra. “Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?”. E Homero quando Bento aponta: “Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito”.

Estabelecendo comparações entre as diversas formas de cultura. O fim do purgatório de Dante em A divina comédia também presenteia Dom Casmurro quando o narrador escreve à Dona Sancha, fazendo uso dos versos de Dante para exemplificar um momento de alívio que viria antes do paraíso:

Vá envelhecendo, sem marido nem filha, que eu faço a mesma coisa, e é ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade. Um dia. Iremos daqui até à porta do céu, onde nos encontraremos renovados, como as plantas novas, come piante novelle,

Rinovellate di novelle fronde.

O resto em Dante.

Pois bem, foram poucos exemplos de como Machado recorre à intertextualidade para firmar o caráter universalizante de sua literatura, chamando outras vozes para dentro de seu romance.

No próximo texto, o argumento C: a metalinguagem machadiana.

Até lá!

5 comentários em “Machado de A a Z

  1. Aglycia Responder

    A obra machadiana é sem dúvidas excelente!!! As histórias e o humor negro presente em alguns livros, assim como os recursos inesgotáveis que o autor utilizou tornam seus livros atemporais e sempre com aquela vontade de ler mais páginas!

  2. monica carneiro da rocha Responder

    Muito bom o texto. De fato uma leitura pode nos remeter a outras leituras. Sinto que as pessoas de maneira geral sentem dificuldades em ler Machado por essa falta de leituras de apoio bem como por sua linguagem culta. Todavia acho que temos que ter ante a literatura um enfrentamento, ou seja insistir até aquela leitura fazer sentido para nos. Machado não é um mero romancista brilhante mas um autor que mesmo de décadas passadas muito atual e contemporâneo. Lê-lo é conhecer um pouco da nossa história e porque não dizer nossa formação de povo. A bem da verdade é a de que desejo que nós brasileiros conheçamos nossa rica literatura clássica. desassociando-a de leitura chata, ou mero objeto de estudo pra vestibular. Viva Machado!!!

  3. Letícia Bezerra Responder

    Melhor autor brasileiro. Suas obras possuem um nível de complexidade que não afasta o leitor, mas o aproxima com os recursos acima citados. Para além disso, todos os seus livros possuem, de alguma maneira, críticas a fatos da época que são bastante atuais.

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