Autoras superpoderosas:

O poder cinematográfico da narrativa Virgínia Woolf

 

 

É inegável que Woolf seja um prato cheio para os leitores, mas, mais do que isso, desde meados de 1900, ela nos ensina a escrever. Estudando além das suas narrativas, tramas e enredos, entre tantos poderes de Virgínia Woolf, destaco o poder cinematográfico.

Recentemente, em uma especialização em escrita criativa, escutei um comentário, que até ler Virgínia Woolf, eu não dava muita atenção. “A maior parte das adaptações cinematográficas não chegam aos pés de bons livros”, fato. Mas, “bons livros em geral, não precisam de adaptação”, fato.

 

Virgínia Woolf rompe as barreiras textuais, trazendo recursos narrativos, que talvez uma câmera não conseguisse captar, sentimentos e expressões muito além dos recursos visuais. Ela usou a máxima de que “o papel aceita tudo”, com maestria.

 

Note a narrativa da obra O farol, de 1927. Um dos principais trabalho da autora. Em O farol, somos apresentados à família Ramsay e seus amigos na casa de veraneio. Como pano de fundo, os traumas da primeira guerra mundial. Apresentações feitas, vamos ao estilo cinematográfico da escrita Woolf.

Serão apresentadas duas perspectivas de um único trecho. O diálogo do capítulo 1, “A Janela”.

O primeiro é uma tentativa minha de destacar a mensagem do texto. Imagine que tivesse sido escrito de uma forma mais rápida e direta:

 

— Sim, claro, se o tempo estiver bom amanhã. Mas vocês terão que madrugar —  disse Mrs. Ramsay.

— Mas, o tempo não vai estar bom — disse o pai parando em frente a janela de visitas.

— Mas talvez faça tempo bom… é o que espero — disse Mrs. Ramsay.

— É justamente o oeste — disse Tansey.

 

Esse era o centro da mensagem, poderia seguir assim, e já nos traria uma sensação de cena, de tempo, de expectativa para um dia vindouro. Um diálogo comum e usual. Mas Woolf usou sua narrativa como um recurso audiovisual mental, ela era a própria adaptação.

Até que esta conversa acima tivesse chegado ao fim no vento oeste, Woolf escreveu sete parágrafos, e cito a terceira frase do diálogo para demonstrar os recursos visuais e estilísticos usados por ela.

 

“Mas talvez faça tempo bom… é o que espero”, disse Mrs. Ramsay, com impaciência, dando mais um ponto na meia marrom-avermelhada que estava tricotando (note que neste momento estamos vendo Mrs. Ramsay em uma poltrona tricotando). Se ela a terminasse nessa noite, e se eles fossem afinal ao farol, iria dá-la ao filhinho do faroleiro, que estava ameaçado de tuberculose óssea, junto com uma pilha de revistas velhas e um pouco de fumo (agora Mrs. Ramsay tricota a meia, e a sensação é de que a câmera circunda sua poltrona, mostrando o olhar no tricô, mas seu rosto claramente pensando no que levaria ao farol, talvez fazendo comentários a si mesma, balançando afirmativamente a cabeça, mexendo os lábios com sutileza) … Pois quem gostaria de ser trancado durante um mês inteiro, e possivelmente mais, em tempo ruim, sobre um rochedo do tamanho de uma quadra de tênis? perguntou ela (a falta de aspas indica que ela perguntou a si mesma, e nos indica que, apesar de tricotar, seu pensamento estava lá, no farol. E mais uma vez a câmera que Virgínia criou na narrativa, circunda, se afastando e dando closes na personagem, enquanto ela conversa com si mesma)… Por isso, acrescentou, em um tom bastante diferente, era preciso levar-lhes todo o conforto possível.

“É justamente o oeste”, disse Tansley…

 

Note que entre uma fala e outra (entre a vontade de bom tempo e o comentário sobre o vento oeste), passam-se segundos, ou menos. Virgínia Woolf nos faz conhecer de perto os pensamentos e desejos dos personagens, desejos estes que jamais conseguiriam ser expostos em uma adaptação, sem que fossem usados minutos, horas e dias de construção de personagem frente às câmeras, camada a camada.

A sensação é de que o próprio câmera consegue ler os pensamentos da personagem, narrar a cena e o além cena, sem ser pesado, descritivo demais ou de maneira a travar a leitura. Sem dúvidas, Virgínia Woolf nunca precisou de recursos de adaptações para exprimir os sentimentos e camadas de seus personagens. Ela foi luz, câmera e ação.

A complexidade da narrativa de Virgína Woolf, rendeu uma peça de Edward Albee, de 1962, intitulada Quem tem medo de Virgínia Woolf?. Não é segredo que ela é considerada uma das mães do fluxo de consciência nas narrativas, sendo esta uma das suas principais marcas, seu estilo.

 

Enquanto que, para o leitor, Virgínia transporta, traz grandes aventuras, enredos e dramas. Para o escritor ela é mestra na ambientação, descrição e escolha de narrador.  Qualquer uma de suas obras, é sem dúvida uma aula de escrita criativa.

Tábata Iauata Torres é designer, leitora, autora principiante e ansiosa por natureza. Recentemente resolveu levar seu hobby a sério, resenhar livros incríveis e escrever o que vem à cabeça. Amante da acessbilidade digital, possui projetos de audiodescrição. Muito prazer Tábata!

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