Recentemente eu ganhei um presente indiretamente da Editora Madrepérola. Esse presente foi saber que ele publicaria, em financiamento coletivo, no Catarse, As Revelações de Arsène Lupin, de Maurice Leblanc.

Escritor e jornalista francês, Maurice Leblanc abandonou a faculdade de Direito e tornou-se parte do círculo literário de Paris, onde trabalhou como jornalista. Seus primeiros romances eram inspirados na tradição literária do realismo francês que tinham como ícones Gustave Flaubert e Guy de Maupassant. Embora valorizados pela crítica, Des Couples(Os casais) de 1890 que foi dedicado ao seu mestre Maupassant; Une Femme (Uma mulher) de 1893 que o fez ser comparado a Flaubert, e, respectivamente, Contes du Gil Blas (Contos de Gil Blas) de 1892 e L’Enthousiasme (O entusiasmo) de 1901 não encontraram público.

Em julho de 1905, a pedido do chefe de imprensa Pierre Lafitte da revista mensal Je Sais Tout, publicou L’Arrestation d’Arsène Lupin, que imediatamente teve grande sucesso. Com a visibilidade do personagem, passou a se dedicar de forma exclusiva às suas aventuras, dando cada vez mais camadas ao criminoso. Desportista, muito culto, charmoso, anarquista, patriota, justiceiro, zombeteiro e torturado, Lupin abusa da hipócrita aristocracia que vive apenas das aparências para dar seus golpes e construir seu império do crime. Como versão às avessas do detetive britânico Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle que consolidou o gênero policial moderno (e com quem teve problemas judiciais devido a direitos autorais), na qual Leblanc usa Lupin para questionar a ordem social francesa de forma elegantemente e bem-humorada.

Um exemplo disso foi a controvérsia entre Leblanc e Doyle. Em sua sétima colaboração para a Je Sais Tout, o autor francês se apropria do detetive britânico do autor escocês para confrontar seu personagem no conto “Sherlock Holmes chega tarde”. O confronto acontece, e o protagonista rouba o relógio do famoso detetive, o ridicularizando na frente de seu contratante com um cartão de visitas. Em uma análise mais criteriosa, podemos dizer que Leblanc surfou no sucesso editorial de Doyle, o que o deixou furioso. Para evitar problemas com a justiça e abusado de sua fina ironia, Leblanc rebatizou o detetive de uma maneira não muito discreta: Herlock Sholmès, morador da Parker Street, onde divide apartamento com seu amigo Wilson. Além desse conto, Sholmès apareceu ainda em outros três livros: Arsène Lupin contra Herlock SholmèsA Agulha Oca e 813.

Não vou detalhar aqui cada um dos muitos eventos que aconteceram com Arsène Lupin. Mas, segundo o site Tout Arsène Lupin (2021), podemos nos concentrar na evolução da psicologia e do caráter do personagem. De 1874 a 1896 foi sua infância; de 1897 a 1914 seu período anarquista; de 1914 a 1919 seu período patriota; de 1920 a 1929 seu período burguês e por fim 1929 sua aposentadoria (?).

O livro As Revelações de Arsène Lupin da Editora Madrepérola originalmente é uma coleção de contos publicados na revista Je Sais Tout de abril de 1911 a fevereiro de 1913. Cronologicamente, Leblanc coloca essas histórias antes de A Agulha Oca e 813, ou seja, em seu período anarquista. Encontramos o ladrão de casaca em seus primórdios, enfrentando verdadeiras enrascadas e quebra-cabeças cujas intrigas são menos desenvolvidas do que as de seus romances e se afastando definitivamente do sombrio 813.

Como em uma autopoiese literária, Leblanc não só usa o sistema do conto policial de Doyle, mas recicla seus próprios componentes e diferencia-se no meio exterior. Sherlock é um típico cavalheiro vitoriano que cruza Londres com algo de solidão e liberdade dos romances de cavalaria enquanto Lupin junto com seus asseclas corta Paris como um verdadeiro dândi pícaro da Belle Époque. Se o romance policial se baseia no fato de que a moralidade é a mais obscura e ousada das conspirações como diz Chesterton, o autor fez seu personagem conseguir transitar no campo da literatura criminal de tal forma que foi finalmente reconhecido como escritor e imortalizado por sua criação, conseguindo popularizar um vilão que se torna anti-herói como protagonista no gênero policial, afirmando o sentido próprio da tradição francesa do gênero.

 

Igor Moraes é técnico em telecomunicações e escritor. Desenvolveu projetos para a coleção O que é ser cientista? da Universidade Federal do ABC. É fundador do site literário Golem e participou das antologias Insólito: o grande livro do fantástico brasileiro e O Livro da Ficção Científica Brasileira.

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